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Opinião
- Edição 537 - Jornal NippoBrasil
O ano que queremos
Teruo Monobe*
Começo
de ano é sempre igual, sobra otimismo. Faz parte da natureza humana.
Também, em meio a tanta festa é difícil evitar ser
otimista. As festas contagiam até mesmo os chineses cujo Ano-Novo
não coincide com o calendário gregoriano. Mas, por conta
da ocidentalização dos costumes e pela distância relativamente
pequena entre os inícios de ano dos dois calendários, as
festas acabam sendo comemoradas. Algumas promessas de inicio do ano, porém,
são difíceis de cumprir, principalmente as que surgem do
excesso de otimismo; poucos cumprem promessa de parar de fumar, de beber,
de perder peso. Quando se trata de finanças, então, é
pior.
Já que
mencionamos o ano novo chinês, é preciso chamar a atenção
que este é o ano do tigre. E tigre quer dizer explosão,
extremos. Alguém já viu a conhecida expressão tigre
asiático em economia? Pois bem, os tigres asiáticos
eram Cingapura, Taiwan e Coreia do Sul; a China não estava incluída.
São economias que cresceram rapidamente. Como a China está
em alta, e ainda se vai falar muito nela neste ano, é interessante
fazer alguns contrapontos. Recordando, o ano passado, no horóscopo
chinês, foi a vez do boi, um animal que muitos asiáticos
usam como animal de carga no lugar do burro nos países ocidentais.
Curioso notar
que 2009 foi realmente o ano do boi, pois a China trabalhou muito mais
e melhor do que os outros e por isso se fortaleceu com a recessão
mundial (ela própria não teve recessão). Também,
os chineses interpretaram muito bem o ideograma de risco e oportunidade,
e o país acabou se desenvolvendo muito mais do que os outros. Exemplo
disso é que passou a Alemanha, que era o maior exportador mundial.
Nos Estados
Unidos, mesmo em recessão, o mercado financeiro foi regido pelo
boi, ou melhor, pelo touro, animal que representa a alta de mercado. E,
assim, Wall Street deu alegrias em 2009.
Aqui no Brasil,
as bolsas estouraram a boca do balão, faltando muito
pouco para chegar ao índice anterior à crise. Dizem até
que é uma bolha que pode estourar. Este ano, porém, é
uma incógnita, pois teremos a Copa do Mundo de Futebol e as eleições
para presidente e para governadores, e para dois níveis do Legislativo
Federal (Senado e Câmara), além das Assembleias. É
um ano atípico, cujos eventos felizmente ocorrem a cada quatro
anos, tornando o ano mais curto. Sem dúvida, a sucessão
presidencial é o centro da discussão. Vem aí muita
baixaria na política, e por isso, é bom ter TV a cabo ou
aumentar o estoque de DVDs.
Não
é demais lembrar que no primeiro semestre, a discussão vai
ser a Copa. No segundo, será as eleições. Diz-se
que, no Brasil, se começa a trabalhar só depois do Carnaval,
ou da Semana Santa. Quem é católico sabe que o período
que vai do Carnaval até a Semana Santa é chamado de Quaresma,
período de reflexão e penitência, depois dos abusos
no Carnaval. O período que vai da Semana Santa até a Copa
do Mundo é muito curto, dois meses. E, terminada a Copa, vem as
férias e, em seguida, o período eleitoral. Depois do segundo
turno, é quase fim de ano.
Não
se sabe se é por conta do otimismo de início de ano ou das
eleições, o cenário para 2010 foi pintado como róseo
para o Brasil. Com o decorrer do primeiro mês do ano, alguns já
até melhoraram as projeções de crescimento, projeções
estas que indicam um crescimento do PIB de até 6% em 2010. Novamente,
é preciso repetir que tudo depende de quanto foi o PIB do ano anterior:
quanto menor a base do ano anterior, maior é o crescimento do ano
posterior. Essa é uma questão matemática. O Índice
de Confiança do Empresário Industrial foi de 68,7 pontos
em janeiro, o maior em 11 anos.
Porém,
alguns economistas alertam que nem tudo são flores. Três
aspectos são preocupantes: (a) o cenário externo ainda é
incerto; (b) as contas externas do Brasil pioraram muito nos últimos
tempos, e (c) as eleições são um risco, como em 2002.
Todos esses fatores vão ditar o comportamento da economia e das
finanças neste ano. É realmente um ano de tigre, de explosão
e de extremos. Mas é preciso ver, independentemente do novo ocupante
do Palácio do Planalto, qual a herança que o atual governo
vai deixar. Assim como só se conhece o bom uísque no dia
seguinte, é bom que a população avalie seriamente
quais candidatos vai eleger neste ano.
É preciso
só acrescentar que, no ano do tigre, os chineses, novamente, vão
tirar proveito do próprio ideograma de risco e oportunidade. E,
falta muito pouco para se tornarem o 2º maior PIB do mundo. Para
quem cresce 8,3% em um ano em que os países mal se recuperaram
da recessão, nada é difícil. Difícil é
deixar de lado a crença de que o tigre vai deixar de ser o animal
da prosperidade. Quando cunharam a expressão tigres asiáticos,
esqueceram de colocar a China entre eles. Talvez por isso não se
fala mais em tigres asiáticos; do contrário, com quem a
China poderia ser comparado?

*Mestre em Administração Internacional e doutor pela USP
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