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Opinião - Edição 548 - Jornal NippoBrasil

Sinal amarelo para Hatoyama

Alexandre Ratsuo Uehara*

No dia 26 de março, foi aprovado pelo Parlamento do Japão (Dieta) o orçamento recorde para 2010, pouco mais de US$ 1 tri-lhão, o primeiro elaborado pelo Partido Democrático do Japão (PDJ). Após a aprovação, o primeiro-ministro, Yukio Hatoyama, apresentou em seu site o artigo intitulado “Novo começo”, afirmando que os recursos contemplarão as promessas da campanha, realizadas em setembro de 2009, em relação à ajuda para criação das crianças, atendimento de saúde, empregos e meio ambiente.

As medidas de apoio à criação de filhos envolvem o fornecimento de ajuda finan-ceira (cerca de US$ 275 por criança), aumento de 50 mil vagas por ano nas creches e ampliação do serviço de atendimento a crianças que necessitam de cuidados médicos. Na área da saúde, o governo, no novo orçamento, também incluiu recursos aos principais hospitais do país para extensão do atendimento médico nas áreas de emergência, obstetrícia e cirurgia. Para os trabalhadores, a boa notícia é a redução da exigência de seis meses para 31 dias trabalhados para recebimento do seguro desemprego.

Esses planos de apoio à população são propalados como uma mudança na política do governo atual em relação aos do Partido Liberal Democrático (PLD), que predominou absoluto por quase todo período pós-Segunda Guerra Mundial. O primeiro-ministro Hatoyama reiterou à imprensa que o novo foco dos gastos públicos são pessoas e não concreto, uma referência clara aos frequentes investimentos em construção civil feitos pelo PLD.

Essas medidas são importantes tentativas de recuperação da popularidade do primeiro-ministro que, de acordo com os resultados da pesquisa de opinião realizada pela Kyodo News, viu sua popularidade cair de 72% para pouco mais de 36%, desde sua eleição em 16 de setembro de 2009 até março de 2010. Essa rápida perda de popularidade preocupa o partido da situação, pois em agosto próximo haverá eleições para Câmara Alta, onde o PDJ detém, com os partidos de sua coalizão, 122 do total de 242 cadeiras. O enfraquecimento do primeiro-ministro poderá conduzir a perda da atual maioria absoluta.

Entre os fatores que têm contribuído para essa perda de popularidade estão os escândalos políticos envolvendo o secretário-geral do PDJ, Ichiro Ozawa, mas também o próprio Yukio Hatoyama. Ozawa foi obrigado a renunciar ao cargo de presidente do PDJ por causa de acusações de recebimento de financiamentos ilegais de pouco mais de US$ 357 mil por seu secretário Takanori Okubo. Neste momento, Ozawa sofre pressões para renunciar ao cargo de secretário-geral do PDJ por causa de outro escândalo que virou manchetes em janeiro deste ano, envolvendo recursos em torno de US$ 4,4 milhões para aquisição de imóvel.

Já Hatoyama teve problemas com recursos não declarados para um fundo político do partido, recebidos de sua mãe, com valores estimados em torno de R$ 24 milhões. O problema, denunciado em dezembro de 2009, é que a lei japonesa limita as doações individuais a cerca de US$ 15 mil dólares anuais – acima disso há pesados impostos. Para não pagar esses tributos, de acordo com a promotoria de Tóquio, foram falsificados recibos. Apesar de o primeiro-ministro ter pagado os impostos devidos, sua imagem sofreu forte desgaste. Esses episódios frustraram a população japonesa, que tem percebido mais continuidade do que mudanças em relação aos governantes do PLD.

Na área econômica alguns resultados positivos até foram conquistados, como a redução do desemprego, que caiu de 5,4%, quando Hatoyama assumiu, para 4,9% no mês de março, mas isso não tem sido suficiente para sustentar a posição política. O sinal amarelo do PDJ está aceso, pois caso perca a maioria na Câmara Alta, as dificuldades para o desenvolvimento de suas políticas e, consequentemente, o risco de Hatoyama ser obrigado a renunciar, serão ampliados.




*Doutor em Ciência Política, Coordenador do Curso de Relações Internacionais nas Faculdades Integradas Rio Branco
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