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Opinião - Edição 550 - Jornal NippoBrasil

A tragédia grega e a elevação dos juros

Teruo Monobe*

O título acima representa dois fatos recentes da economia global, aparentemente sem correlação um com outro. Nem existe uma coincidência de datas, embora o recrudescimento da crise grega tenha ocorrido justamente na semana em que o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central elevou os juros depois de muito tempo. Os dois assuntos já estavam sendo comentados há muito tempo. A coincidência poderá existir se a Grécia quebrar, já que o Copom está elevando os juros pela primeira vez desde a quebra do banco Lehman Brothers, ocorrida em 15 de setembro de 2008, e que foi o estopim da crise financeira internacional.

Pois é, agora está todo mundo imaginando se não vem por aí uma nova crise mundial. Todo mundo é modo de dizer, mas as preocupações pelos estragos da crise grega são grandes. Conforme dados publicados no artigo do professor Delfim Neto, na Folha de S. Paulo, a dívida pública grega chega perto de 300 bilhões de euros, ou 114% do PIB, uma enormidade. E o déficit orçamentário, então, é outro grande susto: 13,6% do PIB, sendo o limite máximo admitido para países da zona do euro, de 3%. Por aí, pode-se ver o tamanho do problema. Segundo previsões, a Grécia pode precisar de 120 bilhões de euros, o dobro do valor que se discute.

Mas as reações do mercado se dão por causa de um contexto maior. A reação da semana passada deveu-se ao rebaixamento das notas da Grécia e de Portugal pela agência de classificação de risco Standard & Poors (S&P), tudo por conta do risco fiscal. Esses rebaixamentos provoca-ram mal-estar nos mercados, como não poderia deixar de ser. Um mal-estar como esse sempre acaba contaminando os mercados financeiros e de câmbio, fazendo que as cotações das moedas oscilem nos mercados de câmbio mundiais. E o cenário não vai melhorar tão cedo.

A elevação dos juros no Brasil, porém, não tiveram muito a ver com a instabilidade dos mercados, ou seja, com a crise grega. O aumento da taxa Selic (juros básicos da economia) na realidade foi um “(...) processo de ajuste das condições monetárias ao cenário prospectivo da economia, para assegurar a convergência da inflação à trajetória de metas (...)”. Muito sutil deveras. Sem novidades, já que se havia prognosticado esse aumento já faz algum tempo. Alguns analistas experientes até adivinharam os pontos percentuais do aumento.

O aumento dos juros é um reflexo das expectativas de inflação para este ano. Mas, não é só isso, pois os juros no Brasil tornam-se os maiores do mundo, além de o País já ser uma das nações emergentes mais cobiçadas. Resultado: o País vai atrair mais capital especulativo para financiar os seguidos déficits, que continuam aumentando. A surpresa ficou por conta da comunicação que o presidente do Banco Central fez ao presidente Lula de que os juros iriam levar “uma paulada” agora, pois o desgaste eleitoral do governo seria menor e o efeito na economia, mais rápido. Ficou clara a submissão do Banco Central ao governo.

Os analistas comentam que haverá pouca repercussão no mercado por conta da elevação dos juros e também talvez porque as medidas não vão ter vida longa. Duas pesquisas divulgadas mostram o otimismo geral reinante: a pesquisa sobre a confiança do consumidor, que constatou a maior alta desde junho do ano passado, mostra o otimismo do brasileiro com relação ao desempenho da economia. O mesmo se pode dizer da pesquisa feita pela Fiesp que constatou que a indústria de São Paulo ampliou o uso de capacidade. Resultado: poderá haver um aumento do consumo, ao contrário da política monetária que se está implementando.

No front externo, de acordo com Celso Ming, do Estadão, o Banco Central Europeu (BCE) começa a entrar em xeque diante de um terrível dilema. Se, nas operações com bancos europeus, o BCE continuar aceitando os títulos gregos como garantia em igual nível de valor com os títulos alemães, por exemplo, haverá uma perda de credibilidade por parte do BCE, o que refletiria no valor do euro. Se, porém, o BCE não aceitar os títulos gregos, então, não só a Grécia, mas outros países na mesma situação (como Portugal, Espanha e Itália) poderão quebrar conjuntamente. Se a moratória grega é inevitável, é bom colocar as barbas de molho.

Como foi dito, o aumento dos juros no Brasil não tem nada a ver com a crise grega. Mas, oferece oportunidade para se fazer algumas reflexões. Quem diria que um dia a Europa pudesse ter tantos problemas econômicos e financeiros? E também, quem imaginaria que uma união de países altamente civilizados iria desembocar numa crise sem precedentes, justamente em função dessa união, depois de mais de 50 anos da concepção da ideia? Nós, latinos, que somos apenas os colonizados (dos europeus), com o índice de confiança subindo por aqui. Que tal refletirmos um pouco sobre o paradoxo dos tempos?




*Mestre em Administração Internacional e doutor pela USP
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