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Caderno  Personalidades do Japão

Ano: 1910 - 1998
Akira Kurosawa

(Ilustração: Claudio Seto)

Há um interessante episódio que se passou entre Akira Kurosawa e Martin Scorsese, vencedor do prêmio Oscar de melhor diretor deste ano com o filme Os Infiltrados. Na película Sonhos (1990), há uma inserção sobre Van Gogh e Kurosawa, achando que Scorsese seria ideal para esse papel, enviou-lhe uma carta propondo a sua participação. A resposta afirmativa veio imediatamente, apesar de o intuito não ter chegado a se concretizar. Contudo, presume-se que Kurosawa seja o japonês que mais tenha tido esse intercâmbio com diretores representativos de Hollywood e que tenha influenciado sobremaneira a criação no cinema.

Kurosawa, uma personalidade do mundo

O filme Kôya no Yôjinbô (Yojimbo, o guarda-costas) – no qual inclusive o diretor Clint Eastwood, do novo e comentado trabalho Cartas de Iwo Jima, atuou quando jovem – foi uma regravação do filme Shichi nin no samurai (Os sete samurais), de Kurosawa. Dizem que os personagens do filme Star Wars, do diretor George Lucas, também teriam sido inspirados em Kakushitoride no san akunin (A fortaleza escondida), de Kurosawa. A cena do filme O Encontro com o Desconhecido, de Stevem Spielberg, na qual o jipe surge de dentro da tempestade de areia foi inspirado em Kumonosujô (Trono manchado de sangue). A cena inicial de casamento no filme God Father, de Francis Ford Coppola, teria imitado a técnica de Warui Yatsu Hodo Yoku Nemuru (Homem mau dorme bem).

Também foram próprios de Kurosawa artifícios técnicos, como filmagem em câmera lenta das cenas de ação ou a utilização de lentes de aproximação. Dizem que a beleza das imagens que retratam a natureza, como chuva, vento, etc., encantou os diretores artísticos do Ocidente, atraindo-os.

Na verdade, Kurosawa também sofreu influências de diretores ocidentais. Por exemplo, cenas de corrida disparada de cavalo teriam sido aprendidas sob orientação pessoal do diretor Johan Ford. Kurosawa ganhou um Oscar honorário em 1990. Seus trabalhos na fase posterior, como Kagemusha (Kagemusha, a sombra de um Samurai), Yume (Sonhos), Ran, etc., são obras conjuntas com produtores estrangeiros ou capitais estrangeiros.

O elemento humano nas obras de Kurosawa

Tadao Sato, crítico do cinema, afirma: “Akira Kurosawa gostava de figura humana repleta de vitalidade. Para ele, quando essas pessoas cheias de vida manifestam-na de forma arrogante, surge o mal; e quando elas próprias a controlam, surge o bem. Para Kurosawa, uma pessoa sem vitalidade e sem vigor é como uma pessoa morta desde o princípio”. Sua grande obra Ikiru (viver) retrata um funcionário público comum que, a partir do momento em que lhe foi sentenciada a morte, repentinamente desperta para a vida. O ator Mifune Toshiro, um elemento que não poderia faltar nas obras de Kurosawa, também foi um japonês com novo e ofuscante perfil, o que ajudou a marcar seu trabalho.

Kurosawa Akira x Miyazaki Hayao

A maior autoridade em termos de animê, Miyazaki tinha como sonho, desde os anos 70, realizar um filme que superasse a maior obra-prima do cinema que retrata épocas antigas do Japão: Os Sete Samurais (1954). E esse desafio se concretizou nos anos 90, na forma do animê Mononoke Hime. Entretanto, a expressão foi em forma de fantasia histórica, ao invés de um cinema histórico. Atualmente, com a mudança da visão sobre a história, não há como negar a estrutura dos romances históricos antigos. O crítico Kanou Seiji observa que: “Em substituição, foi escolhido um tema grandioso: a saga humana, que, em detrimento da destruição do meio ambiente, construiu civilizações e grupos comunitários, lutando entre si por seus direitos e vantagens, bem como a sua luta com as diversas divindades”. Teria Miyazaki se libertado do encanto dos filmes que retratam épocas passadas construído por Kurozawa?


* Esta página foi produzida pelas professoras Akiko Kurihara, Hiroko Nishizawa e Kurenai Nagahama. Tradução: Akiko Kurihara, Clara Kazuko Sakai e Arísia Noguchi.

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