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Caderno Lendas do Japão

Osho-san, Kozô to Kitsune - Final
(O monge, o acólito e a raposa)

(Texto e Ilustração: Cláudio Seto)

Na primeira parte desta lenda, Osho-san, um monge bonachão e beberrão de saquê responsável por um templo localizado em uma aldeia rural do Japão, foi sumariamente enganado pelas artimanhas de um kitsune (raposa). Depois do episódio, Kozô, o acólito do templo, resolveu "dar o troco" ao animal encantado e fazer com que o monge volte a ser o velhinho carismático de sempre, já que a armadilha da raposa o tornou amargo e fanático por rezas e lamentações. Assim, ele planejou atrair a raposa disfarçada de Osho-san e levá-la ao templo dentro de um cesto...

– Osho-san, como o senhor estava demorando, fiquei preocupado e vim buscá-lo. Mas estou estranhando, pois o senhor não parece embriagado... Então, por que demorou tanto?
– Ah! Acho que bebi demais... Eu estou bêbado – disse o falso monge, começando a cambalear.
– Realmente, Osho-san, mas, se o senhor continuar trançando as pernas, é bem capaz de ser enganado por aquela raposa outra vez. Acho melhor o senhor ficar escondido descansando neste cesto, que vou lhe carregar até o templo, onde um jantar delicioso lhe espera.
A raposa viu ali uma ótima oportunidade de enganar o Kozô e comer o jantar do monge. Assim, sem vacilar, entrou no cesto e ficou agachada.

– Abaixe a cabeça, Osho-san, o senhor é muito grande para o cesto, vou pôr algumas folhas para poder escondê-lo devidamente. Assim dizendo, Kozô jogou por cima da raposa vários galhos com agulha de pinheiro.
– Agora está bem, o senhor pode tirar uma soneca enquanto voltamos.

Kozô pôs o cesto nas costas e foi em direção do templo. Se fosse realmente o monge que estivesse no cesto, o acólito não ia agüentar o peso, porém a raposa é bem mais leve que uma pessoa. No caminho ao templo, balançando no centro do cesto, as agulhas de pinho picaram tanto a raposa, que ela, incomodada, acabou voltando a sua forma natural.
Assim que chegou ao templo, Kozô fez sinais com a mão, indicando o cesto. O monge logo compreendeu que ali estava a raposa. Então, Osho-san tratou de fechar as portas e as janelas, enquanto Kozô depositava o cesto ao chão.

– Hoje vou me vingar da raposa malvada que pregou peças em mim – disse o monge, pronto para castigar a raposa.

Num salto rápido, a raposa, descobrindo que fora enganada, pulou para fora do cesto e desapareceu num passe de mágica. Os dois procuraram por toda parte, mas não a encontraram. Nisso, Kozô observou que havia duas imagens de Buda iguais no salão principal. A raposa havia se disfarçado de imagem de Buda para despistar o monge e o acólito. O difícil era distinguir qual a verdadeira e qual a falsa. Ficaram de olho para ver se aparecia o rabo num delas, mas nada aconteceu. Então, Kozô teve uma idéia e disse:

– Osho-san, por que será que a imagem de Buda balança a cabeça sempre que o senhor reza?
– Não sei explicar, mas sei que está na hora de rezar – respondeu o monge, entendendo a estratégia de Kozô.

Assim que o monge começou a rezar, uma das estátuas de Buda começou a balançar a cabeça, acompanhado o ritmo da oração.
Imediatamente, Kozô passou uma corda em torno da estátua, que, descoberta, perdeu o encanto e voltou à forma de raposa. Reconhecendo que havia sido derrotada, a raposa mostrou-se arrependida por ter exagerado nas travessuras com as pessoas da localidade e pediu perdão, jurando que não mais pregaria peças em ninguém.
O monge e o acólito riram e perdoaram a raposa. Ela foi embora agradecendo e fazendo reverência várias vezes.

O monge voltou, então, a ser o mesmo bonachão bondoso que era. Voltou a beber bons goles de saquê durante as visitas diárias a casas de fiéis budistas. Conta a lenda que, a partir desse dia, toda vez que o monge voltava para o templo depois do entardecer, a raposa aparecia transformada em uma bela moça e o acompanhava até que chegasse ao templo são e salvo. Ou será que o monge chegava bêbado e imaginava essa agradável companhia?

 

Claudio Seto foi ao Japão quando tinha nove anos para estudar no Templo Myoshinji, da seita Zen, em Quioto. Após três anos, prosseguiu seus estudos religiosos e de cultura japonesa em Kyushu, no monte Ehiko-san, no templo de mesmo nome, pertencente à seita Shugêndô. No período em que ficou no Japão, Seto mergulhou na história do Japão e aprendeu muitas artes como: haiku, tanka, shodô, kadô, kendô, ninjutsu, mangá, kyudô e bonsai. Ao voltar ao Brasil, com 17 anos, Seto trabalhou como argumentista e desenhista de história em quadrinhos em São Paulo, editor de revistas em Curitiba, chargista, ilustrador e editor.
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