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(Texto e Ilustração:
Cláudio Seto)
São
muitas as lendas atribuídas a Abe-no-Seimei, um famoso onmyoji
(mago, astrólogo, vidente, mestre do Yin e Yang) que viveu na Era
Heian (794~1192). Entre tantos objetos de uso pessoal dotado de poderes
mágicos, o seu chapéu eboshi, usado em rituais religiosos
era bastante conhecido. Diziam os antigos que o tal chapéu tinha
o poder de traduzir a linguagem dos pássaros, dos animais e das
plantas.
Certa ocasião, durante sua peregrinação pelo Japão,
Abe-no-Seimei parou para descansar debaixo de uma árvore. Quando
estava folgadamente sentado e encostado no tronco da árvore, dois
corvos pousaram num galho e começaram a tagarelar. O onmyoji colocou
o seu chapéu mágico para escutar o que os corvos estavam
dizendo.
Anos atrás, o milionário da cidade mais próxima daqui
mandou cortar um pé de cânfora de seu jardim para construir
mais um quarto em sua mansão. Como as raízes não
foram arrancadas, a árvore continuou com vida contou um
dos corvos.
Já imagino o que aconteceu comentou a outra ave.
É isso mesmo. A árvore queria crescer, porém,
sempre que brotava, seus novos galhinhos eram arrancados. É um
tormento para a canforeira, pois suas raízes grossas absorvem muitas
energias da terra, porém, não conseguem dar vazão
pelas folhas. Então, as energias tornaram-se cegas e começaram
a circular desorganizadas dento do pé de cânfora, causando
grande sofrimento e dor ao que sobrou da árvore.
Ah! Então é por isso que as outras árvores
daquela mansão choram todas as noites ao sabor do vento! Estão
consolando o toco do pé de cânfora.
Pois é, devido a tanto sofrimento da canforeira e lamentações
de outras árvores, o milionário que mandou cortar a árvore
acabou ficando doente por causa da atmosfera negativa que tomou conta
da mansão. Alguma coisa tem que ser feita; ou deixa a árvore
crescer, ou arranca pelas raízes para não continuar sofrendo.
É, senão quem vai acabar morrendo é o milionário.
Depois
de ouvir a conversa dos corvos, Abe-no-Seimei foi em direção
à cidade mais próxima e procurou a casa do milionário,
onde se apresentou.
Abe-no-Seimei, o onmyoji da corte! Nossa quanta honra. Já ouvimos
falar de seus feitos fantásticos. Como o senhor ficou sabendo que
nosso patrão está doente?
Ora, se eu não soubesse não seria vidente. Sei também
que nessa mansão existe um quarto novo. Quero passar a noite nesse
quarto e amanhã direi o que seu patrão tem.
Nossa, ele sabe tudo! Não é de se admirar que seja
o maior vidente do Japão! comentaram os empregados da casa.
Conduziram
o mago para quarto e serviram-lhe uma farta refeição. Seimei
recomendou que ninguém viesse ao quarto até o dia seguinte.
Assim que os curiosos servidores da mansão se foram, Seimei apagou
as lamparinas de óleo e, na escuridão, ficou de pé
na varanda, sussurrando palavras mágica em gesto meditativo. Logo
depois, um forte vento fez os longos cabelos do vidente dançarem
como ondas marinhas e, do farfalhar das folhas, uma voz sibilante se fez
ouvir.
Boa noite, pé de cânfora. O que está sentindo?
É o velho salgueiro das margens do rio? indagou uma
voz vindo da terra Obrigado pelas palavras de conforto. Eu queria
morrer logo, mas nem isso consigo.
Não se torture tanto, algo de bom ainda vai lhe acontecer.
Enquanto isso, uma outra voz trazida pelo vento chegou aos ouvidos de
Seimei pela tradução de seu eboshi:
Oi, canforeira, como está hoje?
É você, kuromatsu (pinheiro negro)? Obrigado por sempre
se lembrar de mim, mas acho que não vou durar muito, estou definhado
dia a dia. Só queria abreviar esse sofrimento.
Ora, não perca as esperanças, na primavera, tudo
vai melhorar.
Assim,
o mago Seimei ficou a noite toda ouvindo as conversa das árvores.
Na manhã seguinte, foi levado para o quarto do patrão que
estava doente. O milionário estava gemendo, com dores no corpo
e tontura na cabeça.
Abe-no-Seimei
fez uma reza fervorosa com muitos gestos de exorcismo. Depois, contou
ao milionário a conversa que ouviu das árvores, concluindo
que deveriam arrancar o tronco e as raízes, pois não só
a canforeira estava sofrendo, mas também as outras árvores
amigas.
Imediatamente,
os familiares e os servidores da casa fizeram o que Seimei sugeriu, enquanto
este rezava para que a alma da canforeira tivesse merecido descanso.
Dentro
de três dias, o milionário ficou com a saúde completamente
recuperada. Ele fez questão de enviar para a casa de Seimei uma
gorda recompensa e seu eterno agradecimento. Com isso, a fama de Abe-no-Seimei
cresceu mais ainda, tornando-o um dos grandes personagens legendários
do Japão.
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