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(Texto e Ilustração:
Cláudio Seto)
Há
muito anos, morava na província de Izumo, numa pequena casa junto
ao Lago Kumeda, um massagista cego de nome Yoichi. Na época, quase
não existiam remédios e, a qualquer indisposição
ou mal-estar, os japoneses recorriam à massagem. Yoichi era muito
conhecido na região por ser uma pessoa amável e um verdadeiro
mestre na arte do anma (massagem tradicional japonesa).
Naquele
tempo, os massagistas japoneses eram todos cegos e havia vários
massagistas que o povo chamava de Yoichi, em referência a uma antiga
lenda japonesa. Como todos os massagistas cegos, ele andava com uma vara
de ferro para se orientar e uma flauta (fuezuka) para anunciar sua presença
aos clientes.
Assim,
Yoichi vivia bem, pois, com sua fama de bom massagista, serviço
não lhe faltava. Tinha sua pequena casa e um empregado que lhe
preparava a comida. Certa ocasião, quando margeava a lagoa no caminho
de volta para casa, ouviu um grito de uma garota e barulhos na água,
como se alguém estivesse afogando. Yoichi, que conhecia cada palmo
da região, apurou os ouvidos e entrou na água com tudo.
Agarrou a moça pela roupa e arrastou-a para fora do lago.
Quem é você e por que estava tentando se afogar? perguntou
o massagista.
Sou Asayo, a garota da casa de chá ela respondeu
aos prantos Você me conhece e sabe que não é
possível sobreviver com a ninharia que meu patrão me paga.
Não como há dois dias, por isso resolvi pôr fim à
minha miserável vida.
Venha disse o cego, puxando Asayo pela mão
Vamos comer alguma coisa lá em casa. Meu empregado deve ter preparado
um gostoso jantar.
Assim, Yoichi levou a garota para sua casa, deu uma roupa seca para ela
vestir e serviu um jantar quentinho.
Você é jovem e não deve mais pensar em se matar.
Case comigo e terá casa, boa alimentação e roupa
lavada.
Ayako, que nada tinha a perder, concordou em tornar-se esposa de Yoichi.
Pode se dizer que o casal era feliz. O massagista era muito amável
e tratava sua esposa com muito carinho.
Três
meses depois, chegou à aldeia uma companhia de teatro ambulante.
Entre os artistas, estava Sawamura Tamataro, um ator com reputação
de ser conquistador e sedutor de mulheres em Asakusa.
Asayo
gostava de teatro e não se cansava de assistir às apresentações
quantas vezes elas fossem repetidas. Tamataro, percebendo o entusiasmo
da garota, flertava com ela durante todos os espetáculos. Contam
que, em menos de dois dias, ela estava perdidamente apaixonada pelo ator.
E, ao final de cada apresentação, Asayo entregava a ele
um envelope com dinheiro. Esse era um costume da época, pelo qual
os espectadores demonstravam que tinha gostado da interpretação
de determinados artistas. Assim, Tamataro recebeu gordas recompensas com
o dinheiro suado que Yoichi vinha juntando.
Em um dos envelopes, Asayo escreveu uma carta de amor, convidando o ator
a visitá-la em sua casa. Na ausência do massagista cego,
o ator Tamataro apareceu na solitária casa à margem do lago.
E eles se entregaram freneticamente ao amor carnal.
Depois,
diariamente, quando o marido saía para trabalhar, Asayo recebia
a visita do ator. Os encontros secretos de Tamataro e Asayo escandalizavam
a vizinhança. Como em tais casos, o marido era o último
a saber, pois, apesar de sentirem pena de Yoichi, ninguém tinha
coragem de contar a ele sobre a esposa infiel. Houve ocasiões em
que ele chegou em casa e o amante dela ainda estava lá. Mas, ficando
quieto, saiu sorrateiramente, como um ator em cena. Ela ainda o acompanhou
para se despedir do seu ator, aos beijos e abraços fora da casa.
Certo
dia, Yoichi foi ao babeiro e este lhe contou sobre a conduta de Asayo.
O massagista ficou incrédulo. Não queria acreditar no que
acabara de ouvir. Chegou a dizer que o barbeiro estava tentando caluniá-lo.
É verdade disse o aprendiz do barbeiro Nesse momento,
o ator Tamataro está com sua esposa em sua casa. Assim que você
saiu de lá, ele deslizou para dentro. Faz isso todos os dias. Muitos
já viram isso acontecer, porém todos ficamos constrangidos
de lhe contar. Entretanto, acho que existe um limite para tudo e ficou
tão evidente, que já não dá para continuar
calado.
Yoichi
ficou confuso e aflito. Voltou para casa caminhando tão rapidamente
quanto sua cegueira permitia. Em casa, tentou abrir a porta da frente,
porém percebeu que ela estava trancada por dentro...
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