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Caderno Lendas do Japão

Fuezuka no Kaidan - Parte Final
O fantasma da flauta

(Texto e Ilustração: Cláudio Seto)

Após descobrir a traição de sua esposa e de ser morto acidentalmente em seguida, o fantasma do massagista cego Yoichi foi atrás de um grande amigo seu apenas um objetivo: vingança...

- O que, você está morto?!
- Vim pedir que me ajude mais uma vez, para que meu espírito deixe de penar e possa descansar em paz. Vou contar o que aconteceu e você deve agir como achar melhor.
Ichibei estava muito surpreso por estar diante de um fantasma. Mas era um homem valente e o fato de Yoichi ter sido um grande amigo seu, fazia com que seu fantasma não lhe causasse medo.

O fantasma contou tudo o que tinha acontecido desde que salvou Asayo do afogamento até seu enterro e o casamento da mulher com outro homem.
Ichibei, depois de ouvir toda história, prometeu que se vingaria pelo amigo. Agradecido, o fantasma desapareceu.

Na manhã seguinte, Ichibei achou que havia sonhado tudo aquilo. Mas ficou na dúvida, porque tinha sido “muito real” aquele sonho. Quando estava se levantando, porém, notou algo brilhante perto de seu travesseiro. Era uma flauta usada pelos massagistas cegos. No corpo da flauta, estava gravado o nome de Yoichi.

Ichibei resolveu que deveria ir imediatamente para a aldeia Kumeda e verificar o que havia acontecido a Yoichi. Foi uma longa caminhada, que demorou dez dias.
Assim que alcançou o lago, Ichibei dirigiu-se para casa de Yoichi, apresentando-se como velho amigo do cego a Asayo e Tamataro.
Asayo contou-lhe a mesma história sob outra versão.

- Ele salvou a minha vida. Fomos casados e eu ajudei meu marido cego em tudo. Um dia, ele desviou do caminho, caiu no lago e morreu. Agora, estou casada com Tamataro, que era um grande amigo de Yoichi.

Ichibei sabia que o fantasma de Yoichi não havia lhe contado mentiras, então continuou insistindo nos detalhes da história, para ver se o casal ia cair em contradições. Porém, as horas foram passando e o casal parecia ter combinado muito bem o que dizer, caso fossem interrogados.

Depois que Asayo repetiu, pela sétima vez, que tinha feito de tudo para o bem-estar do seu marido cego, Ichibei, não suportando tanta mentira, contou sobre a visita do fantasma de Yoichi.

Asayo ficou visivelmente amedrontada, porém, o astuto Tamataro acusou Ichibei de estar inventando histórias para extorquir dinheiro deles. E pediu que se retirasse imediatamente.

De repente, uma lufada de vento invadiu a sala onde conversavam, trazendo aos ouvidos o som da flauta do massagista. Ao perceber que era inegável que se tratava do som emitido pela flauta de Yoichi, Asayo gritou de medo.

O som foi se aproximando, aproximando, e agora parecia que a flauta estava sendo tocada dentro da casa. Nesse exato momento, um vento frio invadiu o ambiente e o fantasma de Yoichi entrou pela janela do sótão. Ele era branco e sem olhos. Horrorizados, Asayo e seu marido tentaram sair correndo da casa, porém suas pernas estavam travadas de medo.

Tamataro, então, arremessou a lamparina contra o fantasma, que nem sequer se moveu. A lamparina atravessou Yoichi e espatifou-se na parede, espalhando fogo por todos os lados. O vento encarregou-se de inflamar o incêndio rapidamente, e Asayo e seu marido, incapazes de mover as pernas, foram consumidos pelas chamas em meio a gritos agonizantes.

Ichibei, que conseguiu pular para fora da casa, na manhã seguinte, recolheu as cinzas e enterrou-as numa cova funda, onde levantou um túmulo. No local onde existia a casa, Ichibei fez uma sepultura para a flauta do seu amigo e mandou construir um monumento em memória de Yoichi. Esse caso ficou conhecido como Fuekuza no Kaidan.


Claudio Seto foi ao Japão quando tinha nove anos para estudar no Templo Myoshinji, da seita Zen, em Quioto. Após três anos, prosseguiu seus estudos religiosos e de cultura japonesa em Kyushu, no monte Ehiko-san, no templo de mesmo nome, pertencente à seita Shugêndô. No período em que ficou no Japão, Seto mergulhou na história do Japão e aprendeu muitas artes como: haiku, tanka, shodô, kadô, kendô, ninjutsu, mangá, kyudô e bonsai. Ao voltar ao Brasil, com 17 anos, Seto trabalhou como argumentista e desenhista de história em quadrinhos em São Paulo, editor de revistas em Curitiba, chargista, ilustrador e editor.
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