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Cláudio
Seto*

No
ano em que Chiyodo completou 5 anos, o imperador aposentado Toba decidiu
construir um templo dedicado a Kanon, a deusa da Misericórdia,
contendo 1001 imagens dessa divindade.
Divulgado
o desejo do ex-imperador Toba, as autoridades palacianas ordenaram a coleta
de madeiras para construção do grande templo na região.
Entre as árvores que seriam cortadas, o grande salgueiro foi incluído
com o objetivo de servir como pilar central.
Heitaro,
novamente tentou preservar a árvore, oferecendo seu trabalho e
outras árvores da redondeza, porém, desta vez, os habitantes
da aldeia não concordaram com ele. O povo sentia orgulho pelo fato
de que o grande salgueiro de suas aldeia seria utilizado na construção
do templo sagrado da deusa Kanon.
Nossa aldeia é pobre. Não temos dinheiro para contribuir
na construção do templo, mas podemos oferecer as maiores
toras que serão usada no edifício sagrado - comentavam os
habitantes locais.
Dias
depois, ainda de madrugada, Heitaro e o filho foram despertados pelo som
do machados cortando árvore. Ao acordar assustado, Heitaro viu
que sua esposa, Higo, estava sentada perto dele, tremendo de frio, embora
estivesse muito calor naquele verão. Em sua alva face, lágrimas
escorriam sem parar.
Heitaro
colocou um cobertor sobre seus ombros, enquanto ela falava com voz embargada.
Querido marido, escute bem o que vou dizer agora. Quando nos casamos,
eu pedi a você que jamais perguntasse sobre meu passado ou minha
família. Pois infelizmente chegou o momento de esclarecer tudo.
Eu sou o espírito do grande salgueiro que você salvou há
seis anos. Para recompensá-lo pela sua grande bondade, por meio
de um encantamento, adquiri forma humana para viver com você e fazê-lo
feliz a vida inteira. Infelizmente, este sonho acabou. Estão cortando
o grande salgueiro e sinto a dor de cada machadada. Devo retornar agora
à árvore, porque sou parte dela. Meu coração
está angustiado em saber que estou deixando você e nosso
filho querido. Desejo que ambos tenham uma vida longa e próspera.
Enquanto
ela falava, sua imagem foi se tornando transparente, até desaparecer
diante os olhares lagrimejantes de Heitaro e Chiyodo.
Com
o garoto no colo, Heitaro correu em direção do salgueiro
pedindo para parassem de cortar aquela árvore, mas era tarde demais.
Quando
o sol estava a pino, os marceneiros já haviam desgalhado completamente
a árvore e uma multidão se reuniu para puxar o tronco até
o rio. Flutuando, a tora seria levada até o local do templo a ser
erigido em Quioto. Os trabalhadores amarraram cordas no tronco, usaram
alavancas e tentaram mover em direção do rio, porém,
estranhamente não conseguiram mover nem um centímetro da
tora. Então, chamaram todos os homens da aldeia e, com esforços
multiplicados, tentaram mover o tronco do grande salgueiro. Novamente,
por mais que os homens aplicassem suas forças, o tronco não
saia do lugar.
Heitaro
que, junto do filho, assistia cabisbaixo o esforço do pessoal disse,
então:
Meus amigos, esse tronco do velho salgueiro que estão tentando
mover contém o espírito da minha esposa. Se vocês
permitirem, gostaria que meu filho ajudasse a empurrá-lo, pois
assim ele estaria demonstrando respeito a sua mãe e dando seu último
adeus. É uma maneira de o garoto mostrar a sua mãe que conseguirá
sobreviver após sua partida. Caso contrário, ela jamais
conseguirá sair de perto dele.
Muitos
dos presentes ainda estavam incrédulos com o que o lavrador dizia,
porém, como já haviam tentado de tudo, não nada custava
mais uma tentativa, por mais fantasiosa que parecesse.
Então,
os homens resolveram fazer um último esforço, puxando o
tronco com várias cordas. O pequeno Chiyodo veio por trás
do tronco e, com suas pequenas mãos, empurrou a tora, que começou
a deslizar e seguiu com facilmente até o rio. Enquanto isso, Heitaro
cantava com voz chorosa e lágrimas nos olhos uma canção
de amor e despedida.
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