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Caderno Lendas do Japão

O Roubo do Kannon Dourado - Parte Final

(Crédito das imagens: Divulgação)

Iganosuke, que de perto acompanhou todo o desenrolar daquele incidente, intrometeu-se, dizendo:

– Cavalheiros, eu também sou um samurai e, sem querer, ouvi tudo que disseram. Posso afirmar que, embora a piteira tenha caído no mar, pode ser recuperada, tornando inútil a morte dos senhores. Sou mergulhador comandante em tempos de guerra e capitão de segurança em tempos de paz. Se me permitem, estou pronto para tentar recuperar a piteira tão importante para vocês.

Imediatamente, o navio fez uma pequena manobra e baixou âncora mais ou menos onde a piteira de ouro havia caído. Iganosuke, sem perda de tempo, despiu suas vestes e mergulhou no mar, como tantas vezes havia feito para sabotar embarcações inimigas durante as batalhas entre feudos.

As águas eram rasas naquele ponto. Não demorou quase nada para o capitão avistar o fundo coberto de pedras. Sem precisar mover muitos pés longitudinais, o samurai viu a base da piteira de ouro brilhando entre as pedras. Apanhou o objeto, prendeu- o entre os dentes e, quando se preparava para retornar à superfície, viu outro brilho maior. Aproximou-se e viu, surpreso, que se tratava da estatueta do Kannon Dourado que havia sido roubada do castelo de Takegake.

De volta à superfície, entregou a piteira ao jovem samurai, que se mostrou muito grato, enquanto o samurai velho não parava de se curvar ao solo em agradecimento. Iganosuke recolheu-se a sua cabine e, como havia recuperado a estatueta, dispensou sua vestes de simples viajante e colocou seu traje fino de capitão da guarda do feudo de Kii. Ao retornar ao convés, disse aos dois, que ainda se curvavam, mostrando gratidão:

– Como disse, sou vassalo do senhor de Kii e vim do castelo de Takegaki à procura do ladrão que roubou este Kannon Dourado. Enquanto fazia uma boa ação em procurar a piteira, encontrei o que tanto procurava. Que coisa maravilhosa. Um verdadeiro milagre!

Então, o samurai velho levantou-se eufórico e disse:

– Quanta coincidência! Sou Matsure Fujie, de Takamatsu. Há cerca de um mês, um ladrão chamado Yayegumo Fuinkiri entrou nos aposentos de meu amo e tentou roubar objetos de grande valor. Felizmente descoberto a tempo, fugiu sem nada levar. Embora sendo um homem de idade, sou excelente esgrimista, por isso o segui até a praia, mas não consegui pegá-lo, pois não era rápido o bastante para alcançá-lo. Entretanto, durante a perseguição, pude notar que levava algo brilhante em seu bolso. Ele pegou um pequeno barco e tentou a travessia, porém foi surpreendido por uma grande tempestade no meio do Mar de Seto. Na manhã seguinte, seu corpo sem vida e pedaços do barco foram arrastados para a praia. Fiz o reconhecimento de seu corpo, mas não havia nada em seu bolso. Certamente, perdeu quando o barco virou exatamente nesse ponto. Essa coincidênciaé obra do acaso! Ou um milagre de Kannon?!

Iganosuke levou a estatueta de Kannon de volta ao feudo de Kii e recebeu do daimiô uma bela recompensa. Já a estatueta foi considerada miraculosa e venerada como um dos tesouros de Kii.


Claudio Seto foi ao Japão quando tinha nove anos para estudar no Templo Myoshinji, da seita Zen, em Quioto. Após três anos, prosseguiu seus estudos religiosos e de cultura japonesa em Kyushu, no monte Ehiko-san, no templo de mesmo nome, pertencente à seita Shugêndô. No período em que ficou no Japão, Seto mergulhou na história do Japão e aprendeu muitas artes como: haiku, tanka, shodô, kadô, kendô, ninjutsu, mangá, kyudô e bonsai. Ao voltar ao Brasil, com 17 anos, Seto trabalhou como argumentista e desenhista de história em quadrinhos em São Paulo, editor de revistas em Curitiba, chargista, ilustrador e editor.
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