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Dekasseguis brasileiros nas ruas, praças, igrejas...
Com as demissões nas fábricas, principalmente dos setores automotivo e de eletroeletrônicos, eles sofrem até para voltar ao País

Sidney Tomé, paulista de 43 anos, está, atualmente, na condição de desabrigado e desamparado

(Texto e Foto: Osny Arashiro/ipcdigital.com)

A crise japonesa, como antecipou o NB na última edição, atingiu em cheio a comunidade nipo-brasileira. Os rumores de que havia dekasseguis nas ruas, alojados em corredores de empreiteiras e dentro de automóveis foram confirmados. A situação deve piorar nas próximas semanas, já que muitos trabalhadores receberam aviso prévio das empresas, especialmente dos setores automotivo e de eletroeletrônicos.

O setor de autopeças de uma subsidiária da Honda, em Hamamatsu, cortou 60 trabalhadores estrangeiros, entre eles, o brasileiro R. Nos dias ensolarados, em companhia da esposa e do filho de 7 anos, ele passa as tardes sob a ponte da linha de trem Entetsu. À noite, a família recolhe-se no salão de uma igreja a 20 metros do local. Ao todo, são oito adultos e uma criança vivendo da caridade dos religiosos.

Depois do término do aviso prévio em 31 de outubro, R. teve uma semana para desocupar o apartamento da empreiteira. Não achou novo emprego, ficou sem ter onde morar e recebeu abrigo provisório da igreja que freqüenta. Ele não sabe dizer como estão os colegas demitidos, porque os telefones celulares já não funcionam. “Dei entrada no seguro-desemprego e pretendo comprar as passagens da minha esposa e do meu filho com a primeira parcela que receber. Em seguida, gostaria de arranjar um arubaito para comprar a minha passagem e voltar ao Brasil.”

O filho não freqüenta mais a escola por falta de dinheiro para pagar as mensalidades. “Graças a Deus, não estamos passando fome, porque dois restaurantes brasileiros fornecem-nos comida. Em retribuição, ajudamos a distribuir folhetos de propaganda deles”, conta.

Akira, outro brasileiro, tem 58 anos. Fez ficha duas vezes no Hello Work de Hamamatsu desde que deixou Nagóia, há três semanas, para tentar a sorte na nova cidade. Por não ter onde morar, recebeu o apoio da mesma igreja onde estão outros conterrâneos.

Residindo há 14 anos no Japão, Akira já trabalhou com prensa, pintura, checagem (kensa), abatedouro de frango, corte de peixe, lift e caminhão. Mesmo com toda essa experiência, está difícil arranjar um emprego. “O Hello Work me indicou para um hotel, mas fui mal-atendido e nem me deram resposta se fui aprovado ou não”, lamenta Akira. “Até quando vamos suportar essa crise, brasileiros, empreiteiras e empresários? Será que não há uma solução?”, questiona. “Outro dia, encontrei um japonês na praça, ele estava comendo pão seco. É muito triste, como posso ajudá-lo se estou na mesma situação que ele?”, finaliza.

Desde que perdeu o emprego, a brasileira Michelle Ike vive um drama em Kakamigahara (Gifu), onde mora com os filhos Thiely (8), Ryan (6) e Kevyn (4). Ela tem recebido ajuda de vizinhos e amigos que colaboram com roupas e alimentos, mas teria que desocupar o apartamento até o último final de semana.

Ela calcula que já tem mais de ¥ 500 mil em dívidas com a empreiteira e não consegue recolocação por causa da crise. Separada do marido há quase dois anos, Michelle cria sozinha os filhos, que estudam em escola japonesa e quase não têm lazer. Eles também sabem que, no próximo Natal, não terão a visita do Papai Noel. “Por mais que sejam crianças, eles entendem, ficam tristes, mas sabem que não tenho condições”, lamenta a mãe. Além do ex-marido, ela têm um irmão e um primo no Japão, mas não tem contato com os familiares.

Adeus a casa

Há mais de 14 anos, o Grupo Esperança, fundado pelo padre Evaristo Higa, distribui o sopão aos sem-teto japoneses em quatro locais no centro de Hamamatsu (Shizuoka), todos os sábados à noite. Neste ano, os brasileiros unem-se aos japoneses. “Sei que estou incomodando o povo japonês e envergonhando o povo brasileiro e, por isso, peço desculpas. A gente vem para trabalhar, mas, se não encontra emprego, cai nessa vida que levo agora”, diz Sidney Tomé, paulista de 43 anos, atualmente na condição de desabrigado e desamparado.

Por conta da atual crise, imigrantes como Sidney perderam emprego e casa e alguns deles fizeram dos calçadões públicos o novo lar. Em Hamamatsu, o brasileiro era um dos que estavam na fila para ganhar uma tigela de sopa no dia 22 de novembro.

Ele chegou ao Japão em maio de 2005 e, no ano seguinte, foi atropelado em Toyokawa (Aichi), quando andava de bicicleta. Depois de recuperado, nunca mais arranjou um bom emprego. Há dois anos, vive de arubaito, mas, recentemente, não tem conseguido nada. Logo, entrar na fila da sopa foi a solução. “Meu último trabalho foi entregar verduras lá em Nagano”, diz.

Enquanto Tomé se acomodava para apreciar o tonjiru (sopa de pasta de soja, carne de porco e vegetais), contou ao International Press que seu sonho era juntar dinheiro para comprar uma casa. Mas não conseguiu nem economizar o suficiente para saldar a dívida da passagem com a empreiteira. Menos ainda – cerca de ¥ 30 mil – para pagar a conta do armário público (coin locker) e retirar suas roupas e documentos.

 
NPOs ajudam famílias a superar o desemprego

Mesmo antes de a crise estar na boca de todos os brasileiros no Japão, diversas associações já se desdobravam para oferecer ajuda àqueles que, mesmo em tempos de muitas horas-extras, passavam por dificuldades. Essas iniciativas de solidariedade começam a ganhar força com o aumento do número de brasileiros sem trabalho e sem moradia.

Com centenas de pessoas sendo demitidas das fábricas, organizações como a Ação Mão Amiga (Ama), de Anjo (Aichi), passaram a acumular mais responsabilidades na reintegração de brasileiros à sociedade e ao mercado de trabalho. Laelson Santos, que comanda a entidade há dois anos, diz que a quantidade de pessoas buscando auxílio cresceu de forma relevante nos últimos meses.

Além de oferecer apoio psicológico, a Ama doa cestas básicas. “Aumentou o número de pessoas que precisam de ajuda, mas também dos que acreditam já precisarem dela”, frisa Laelson. Para lidar com a demanda, agora, a entidade realiza uma triagem antes de distribuir os alimentos.

Segundo Laelson, sempre que possível, os voluntários visitam as famílias no momento da entrega. “Infelizmente, começamos a perceber que alguns pedem a cesta básica sem ter realmente essa necessidade de adquiri-la gratuitamente. A finalidade não é ajudar quem quer economizar e sim aqueles que já estão sem condições de comprar um pacote de arroz”, adverte.

Reconhecida como NPO (organização não-governamental) em 2006, a Ama já distribuiu toneladas de alimentos a brasileiros e japoneses. Apesar do reconhecimento só ter chegado há dois anos, Laelson garante que as atividades da entidade tiveram início informalmente há mais de dez anos.

As doações de alimentos, de acordo com ele, dependem da ajuda de pessoas físicas e de empresas. Os participantes do projeto ajudam no atendimento às famílias, que é feito por telefone ou em visitas às residências.

Laelson acredita que, se não houver uma melhora na economia do país, o trabalho voluntário não será suficiente. “Não é questão de haver poucas ou muitas NPOs, mas é importante que o brasileiro tenha a consciência de que ele é a entidade. E cada vez menos pessoas têm estendido a mão”, justifica.

Na opinião dele, também faltam estrutura e respaldo oficial para a maioria das entidades que atuam em prol dos brasileiros no Japão. Atualmente, a Ama não conta com contribuições fixas de quaisquer empresas e sobrevive com doações esporádicas de pessoas físicas. Mas o responsável pela entidade, que distribui até 300 kg de alimentos por mês, segue otimista. “Se há vida, sempre há alguma saída”, argumenta.

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